Vício em bets: como reconhecer os sinais e onde buscar ajuda

Os atendimentos por apostas no SUS mais que dobraram desde 2018. Reunimos o que o Ministério da Saúde e a pesquisa científica dizem sobre sinais de alerta, tratamento e autoexclusão.

Duas pessoas de costas sentadas lado a lado num banco à beira de um lago, entre árvores, em cena que ilustra o apoio a quem enfrenta o vício em bets

O vício em bets é real, tem nome técnico e tem tratamento. Na linguagem da saúde, ele se chama transtorno do jogo e está nos principais manuais diagnósticos. No Brasil, os atendimentos ligados a apostas no SUS mais que dobraram entre 2018 e 2025.

A boa notícia é que dá para agir antes de o problema crescer. Existem sinais de alerta conhecidos, uma ferramenta oficial para bloquear todos os sites autorizados de uma vez e atendimento gratuito na rede pública. Este texto reúne o que as fontes oficiais e a pesquisa científica dizem sobre cada um desses pontos.

Em resumo

  • O problema cresce: segundo o Ministério da Saúde, os atendimentos no SUS por jogo patológico somaram 10.553 entre 2018 e maio de 2025, com alta de 104 % no período.

  • Nem toda aposta é doença: a maior parte de quem aposta não desenvolve transtorno, mas cassinos online concentram as maiores taxas de jogo problemático.

  • Há sinais para observar: apostar para fugir de tristeza, voltar ao jogo para recuperar perdas e mentir sobre valores estão entre os principais.

  • Há saída: a terapia cognitivo-comportamental reduz os sintomas logo após o tratamento, e o SUS atende pela Rede de Atenção Psicossocial.

O que é o vício em bets, na linguagem da saúde

“Vício em bets” é a expressão que a maioria das pessoas usa e digita no Google. O Guia de Cuidado do Ministério da Saúde, publicado em 2026, prefere dois outros termos. O primeiro é “problemas relacionados a jogos de apostas”. O segundo, para os casos mais graves, é “transtorno do jogo”.

A diferença importa porque o envolvimento com apostas acontece em graus. O guia descreve um caminho que vai do jogo recreativo ao jogo de risco, passa pelo jogo problemático e chega ao transtorno. Nesse último estágio, há perda de controle, a pessoa continua apostando mesmo com prejuízo e a vida fica seriamente comprometida.

O transtorno do jogo aparece no DSM-5, o manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, e na Classificação Internacional de Doenças. Na CID-11, o código é 6C50. Isso significa que se trata de uma condição de saúde, e não de falta de caráter ou de força de vontade.

O tamanho do problema no Brasil

O mercado de apostas online cresceu rápido depois da Lei 13.756/2018, que legalizou as apostas de quota fixa, e da Lei 14.790/2023, que regulamentou o setor. Um estudo especial do Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de pessoas fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas em agosto de 2024. É uma estimativa baseada em transações, e não uma pesquisa com apostadores.

Os dados de saúde vão na mesma direção. Segundo o Guia de Cuidado, o terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) encontrou que 25,9 % dos brasileiros já jogaram ou apostaram alguma vez na vida. Entre quem joga, 4,4 % apresentaram alto risco de envolvimento problemático. As modalidades mais comuns foram:

  • loterias (71,3 %);

  • sites de apostas online (32,1 %);

  • jogo do bicho (28,9 %).

No SUS, os registros de atendimento por jogo patológico e mania de jogo e aposta somaram 10.553 entre janeiro de 2018 e maio de 2025. Foram 6.237 na Atenção Primária e 4.316 em atendimentos ambulatoriais, que incluem os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em 2024, 57 % dos atendimentos foram de homens e 43 % de mulheres, principalmente entre 20 e 49 anos. O próprio ministério alerta que há subnotificação e projeta que os números vão continuar subindo.

Por que as apostas online prendem tanto

O cenário mundial ajuda a entender o risco. Uma revisão sistemática publicada em 2024 na The Lancet Public Health reuniu 380 amostras representativas de 68 países. Os autores estimaram que 46,2 % dos adultos apostaram no último ano. Entre eles, 8,7 % tinham algum padrão de risco e 1,4 % tinham jogo problemático.

O dado mais relevante para as bets vem do recorte por modalidade. Entre adultos que apostavam em cassinos online ou caça-níqueis, a taxa de jogo problemático chegou a 15,8 %, a maior entre todos os tipos de jogo. A revisão tem um limite importante: a maior parte das amostras veio de países de alta renda, e há poucos dados sobre a América Latina.

O Guia de Cuidado explica parte desse efeito pelo desenho das plataformas. Elas funcionam 24 horas por dia, cabem no celular e oferecem recompensas rápidas e imprevisíveis. Somam-se a isso publicidade intensa, influenciadores e bônus. O documento chama esse conjunto de determinantes comerciais da saúde: estratégias de mercado que moldam o comportamento e aumentam a exposição ao risco.

Um relato reproduzido no guia, de uma pessoa atendida pela rede, resume a diferença: “o jogo você tá assistindo uma televisão, tá passando anúncio do jogo. Você tá no seu Instagram, tem um influencer”.

Sinais de alerta do vício em bets

Os sinais abaixo são os que o Ministério da Saúde lista para orientar equipes de saúde. Eles ajudam a perceber quando a aposta deixou de ser lazer. Não servem para diagnosticar ninguém: só uma avaliação profissional faz isso.

Sinais emocionais

  • Ansiedade, irritação ou inquietação quando não está apostando.

  • Insônia, principalmente quando as apostas acontecem de madrugada.

  • Apostar para escapar de tristeza, culpa ou estresse.

  • Sensação de perder o controle, mesmo querendo parar.

  • Vergonha e queda da autoestima ligadas às apostas.

Sinais financeiros e sociais

  • Dívidas crescentes, empréstimos ou venda de bens para continuar apostando.

  • Brigas frequentes com a família sobre dinheiro.

  • Problemas no trabalho, nos estudos ou nas relações.

Sinais comportamentais

  • Dificuldade de controlar o tempo ou o dinheiro gasto.

  • Pensamento constante em apostas passadas ou futuras.

  • Mentiras ou omissões sobre quanto e com que frequência aposta.

  • Voltar a apostar logo depois de perder, para tentar recuperar o dinheiro.

O problema raramente vem sozinho. Segundo o guia, estudos internacionais indicam que até 75 % das pessoas com problemas com apostas têm algum outro transtorno mental, como ansiedade, depressão ou uso de álcool. Essas condições podem vir antes, junto ou depois das apostas. O ministério também cita, com base na Organização Mundial da Saúde, a associação entre problemas com jogo e maior risco de suicídio. Por isso, sofrimento intenso merece ajuda imediata.

O que funciona no tratamento

A abordagem com mais evidência é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que trabalha pensamentos e comportamentos ligados ao jogo. Uma revisão Cochrane reuniu 14 ensaios clínicos com 1.245 participantes. Nos estudos que compararam TCC com grupos sem tratamento, houve redução da gravidade dos sintomas e das perdas financeiras nos três primeiros meses após a terapia.

O quadro fica menos claro no longo prazo. Na revisão Cochrane, só um estudo avaliou os participantes entre 9 e 12 meses depois, com efeitos menores e sem diferença significativa. Uma meta-análise de 2023 publicada na revista Addiction, com 29 ensaios e 3.991 participantes, chegou a conclusão parecida. A TCC reduziu gravidade, frequência e intensidade das apostas ao fim do tratamento, mas sem evidência conclusiva de efeito no seguimento. Os autores também apontaram sinais de viés de publicação.

Na prática, isso significa que a terapia ajuda, mas o cuidado costuma precisar de continuidade. É essa a lógica do SUS. O Guia de Cuidado orienta um Projeto Terapêutico Singular, feito por equipe multiprofissional, com foco em redução de danos. O plano inclui escuta, orientação financeira, fortalecimento dos vínculos familiares e tratamento de outros transtornos quando existem.

Ferramentas práticas para reduzir danos

Parar de uma vez nem sempre é possível. O Guia de Cuidado recomenda medidas que diminuem o risco enquanto a pessoa busca apoio.

Autoexclusão centralizada

Desde dezembro de 2025, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Ministério da Fazenda permite bloquear, de uma só vez, todos os sites de apostas autorizados. O pedido é feito em gov.br/autoexclusaoapostas, com conta Gov.br nível prata ou ouro, e é gratuito.

  • A pessoa escolhe um prazo de 1 a 12 meses, sem poder voltar atrás durante o período, ou um prazo indeterminado.

  • As empresas autorizadas têm até 72 horas para bloquear as contas.

  • O CPF fica indisponível para novos cadastros e deixa de receber publicidade direcionada de bets.

A ferramenta tem limites. Ela vale só para as empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, e não alcança sites ilegais. O guia também alerta que os primeiros dias depois do bloqueio podem trazer ansiedade, irritação e vontade intensa de jogar. É um bom momento para contar com apoio profissional e de pessoas próximas.

Outras medidas recomendadas

  1. Defina limites de depósito e de tempo nas plataformas.

  2. Separe o dinheiro: use uma conta exclusiva, com valor fixo semanal e limite baixo de transferência.

  3. Desative as notificações de sites e aplicativos de apostas.

  4. Evite apostar quando estiver triste, ansioso, estressado ou depois de beber.

  5. Converse com familiares ou amigos sobre o que está acontecendo.

Como ajudar alguém próximo

Quem convive com uma pessoa com problemas com apostas costuma sentir raiva, medo e cansaço. Isso é compreensível. Ainda assim, o Guia de Cuidado insiste em um ponto: o estigma afasta a pessoa do tratamento. No relato citado pelo ministério, o usuário conta que muita gente o chamava de “sem vergonha”, e que demorou para perceber que precisava de ajuda.

Algumas atitudes ajudam mais do que o sermão. Escolha um momento calmo para conversar, fale do que você observou em vez de rotular a pessoa e pergunte como ela está. Ofereça companhia para procurar a UBS, o CAPS ou um serviço-escola de Psicologia. Segundo o guia, familiares e a rede de apoio também podem ser acolhidos e acompanhados pelo SUS.

E para quem estuda Psicologia

O tema chega à graduação por dois caminhos. O primeiro é pessoal: segundo o Guia de Cuidado, a publicidade das bets costuma mirar jovens adultos, faixa em que está boa parte de quem cursa a graduação. O segundo é profissional: o ministério projeta aumento da procura, e psicólogas e psicólogos vão encontrar esse sofrimento na Atenção Primária, nos CAPS, nas clínicas e nos serviços-escola.

O Guia de Cuidado é leitura útil para a formação. Ele mostra o cuidado em liberdade, a redução de danos e o trabalho em rede aplicados a um problema novo. Discutir o assunto em sala, em grupos de estudo e nos eventos do CAPARP ajuda a preparar a categoria. No blog do CAPARP, você também encontra nosso texto sobre o uso de IA como terapeuta, outro tema em que tecnologia e saúde mental se cruzam.

Onde buscar ajuda

Se as apostas estão pesando na sua vida ou na de alguém próximo, procure apoio:

  • SUS: a Unidade Básica de Saúde (UBS) do seu bairro é a porta de entrada. Ela pode encaminhar para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) quando necessário.

  • CVV (Centro de Valorização da Vida): ligue 188, de graça e 24 horas por dia, ou use o chat em cvv.org.br. O atendimento é sigiloso.

  • Emergência: SAMU, pelo 192, ou o pronto-socorro mais próximo.

  • Atendimento psicológico acessível: muitos cursos de Psicologia mantêm serviços-escola com atendimento gratuito ou de baixo custo.

  • Bloqueio das apostas: a autoexclusão centralizada, em gov.br/autoexclusaoapostas.

Conclusão

O vício em bets não é falha moral. É um problema de saúde que cresce no Brasil, alimentado por plataformas desenhadas para manter a pessoa apostando. Reconhecer os sinais cedo, usar a autoexclusão e procurar a rede pública são passos concretos. A terapia ajuda, e o cuidado funciona melhor quando é contínuo e inclui a família.


Referências

  • Banco Central do Brasil (2024). Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Estudo Especial nº 119/2024. bcb.gov.br

  • Brasil. Ministério da Saúde (2026). Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. gov.br/saude

  • Brasil. Ministério da Fazenda (2026). Plataforma centralizada de autoexclusão permite bloquear sites de apostas autorizados de uma só vez. gov.br/fazenda

  • Cowlishaw, S. et al. (2012). Psychological therapies for pathological and problem gambling. Cochrane Database of Systematic Reviews, CD008937. doi.org/10.1002/14651858.CD008937.pub2

  • Pfund, R. A. et al. (2023). Effect of cognitive-behavioral techniques for problem gambling and gambling disorder: a systematic review and meta-analysis. Addiction, 118(9), 1661–1674. doi.org/10.1111/add.16221

  • Tran, L. T. et al. (2024). The prevalence of gambling and problematic gambling: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Public Health, 9(8), e594–e613. doi.org/10.1016/S2468-2667(24)00126-9

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação nem acompanhamento psicológico ou médico.

Como este artigo foi feito: texto produzido pela Presidência do CAPARP com apoio de ferramentas de IA na pesquisa e na revisão. Todas as fontes foram conferidas nos documentos originais em 29 de setembro de 2026.

Foto de capa: Brady Jordan no Unsplash.

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